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Chega de pensar com maldade e sentir sem saudade.

Francisco desistiu de Olívia, assim como Arthur desistira.

Quando chegou a sua casa, naquela noite, Francisco lavou as mãos, deu play no álbum Back to the light e convocou o uísque que ganhou dos colegas do trabalho para lhe fazer companhia. Dois copos depois, ele constatou: não queria mais nada de Olívia, nem mesmo a amizade.

No terceiro copo, o interfone toca. “Será que é ela?”, pensou. Sua família não mora na cidade desde 96 e seus amigos não costumam visitá-lo sem aviso prévio. A ansiedade o tomou. Percebeu que o pior ainda existia dentro de si: a esperança.“Too Much Love Will Kill You” era a faixa da vez.

Ao ouvir o trecho “and the pain will make you crazy” achou melhor não atender, fosse Olívia ou não. Francisco se considerava muito novo para morrer e velho demais para sentir qualquer dor que não fosse física. Ele voltou ao sofá e cantou com força, justapondo a voz de Freddie: “Too much love will kill you and you won’t understand why”.

Não houve quarto copo. Bebeu um gole direto da garrafa e adormeceu no sofá da sala.

Ainda lembro de quando eu estudava a primeira série do Ensino Fundamental. As professoras, principalmente as de Humanas, gostavam de ressalvar que o dinheiro não tem valor e, mais importante ainda, que não existe nada que pague uma família unida e feliz. O colégio era caro, talvez fosse por isso que elas faziam tanta questão de nos lembrar daquilo.

Sônia. Esse era o nome de uma das professoras. Acho que era ela quem mais gostava de falar sobre o tal assunto. Certamente ela era a minha favorita. Talvez Sônia previa que a maioria dos que estavam naquela escola seriam os futuros “filhinhos de papai” e por esse motivo ela falava tanto sobre valores. E, quem sabe, eu também previa que mais tarde precisaria daqueles conselhos, por isso gostava tanto dela.

Minha irmã, que estudava na mesma escola que eu, um dia disse em casa, durante uma briga de pai e filha: “A felicidade vale mais do que o dinheiro”. Ele concordou. “É verdade”, disse. Eu nunca vou esquecer disso. Mas acho que ele esqueceu.

Eu cresci e, a cada dia que passa, vejo mais valor material da parte dele e da maioria das pessoas que me cercam. Isso me repugna. Se os materialistas fossem somente materialistas, tudo bem. O maior problema deles é que, além disso, eles vêm com o valor da opinião alheia. Um carro comprado por um materialista não serve para satisfazer um desejo próprio, mas sim para satisfazer os olhos de quem o vê dentro do veículo. Ele paga, na verdade, para ver os olhos do outro brilharem com o polimento perfeito que reluz da lataria do automóvel. Ele paga pelo outro, e não por benefício próprio.

Até então, parece que ninguém sai prejudicado. Mas o mesmo que se aplica ao carro, se aplica às relações interpessoais. Um filho de um materialista nunca é só um filho, mas sim um manequim para expor à sociedade, milimetricamente adaptado de acordo com seus princípios, vestindo trajes de seu gosto e levando uma vida pré-moldada. E se o pobre coitado se opõe, está condenado a uma ditadura. Pelo menos até atingir as condições de plena independência. Na frente dos outros, a relação de pai e filho continua sendo folheada a ouro. Dentro de casa, longe de terceiros e por baixo dos panos, nem queira saber.

Não posso negar, meu pai é merecedor de tudo o que tem. Ele saiu do quase zero e lutou por cada centavo. Já trabalhou até em troca de um real por dia e dormiu quatro horas por noite durante seis anos para poder pagar a faculdade. Números a parte, ele, de fato, é um vencedor. Pena que o cifrão fez com que ele se transformasse, com o passar de seus aniversários, em uma pessoa tão cheia de valores (apenas) materiais.

“Eu te dou tudo”. Essa é a frase que ele mais gosta. Fala isso todos os dias e, se pudesse, tenho certeza de que falaria o tempo inteiro. “Tudo”, para ele, é faculdade, dinheiro, comida, carro, gasolina, e às vezes roupas. E é aí que as coisas se complicam, porque é exatamente nesse ponto que as nossas opiniões se diferem. “Tudo”, para mim, é conversa, risada, preocupação, carinho e, principalmente, paz, algo que não se vê muito por aqui, no segundo andar da casa, onde as portas do meu quarto e do quarto dele podem bater, servindo como pontos de discussões intermináveis.

Quando ouso dizer que trocaria o “tudo” dele pelo meu “tudo”, alguns amigos se espantam: “Tu diz isso porque tem tudo. Se tivesse nada, aposto que não diria!”. Provavelmente, então, eu e esses poucos amigos nascemos em famílias contrárias. Mal sabem eles que não estão indo na direção correta. Ao menos no meu preceito de certo e errado, eles estão pensando absurdos.

Não que tenha me faltado amor. Minha mãe sempre cuidou bem dessa parte. Entretanto, não está totalmente salva do materialismo. A diferença é que ela soube compensar. Ela soube ser mãe e ser gente. Meu pai só soube ser gente. E esse fisicalismo não me pertence.

Sônia se orgulharia de mim.

For her.

For her.

As coisas são assim, elas tem começo, meio e fim. Talvez um dia ela perceba que foi um grande erro não ter deixado o coração aberto. Ou talvez nunca note que isso tudo aconteceu, vai saber.

Não posso te expulsar da minha mente. Quem dera se eu pudesse chegar e: “Ó, já passou da tua hora, sai daí”. Quem dera se os motores da minha máquina mental pudessem funcionar contra a tua direção. Teus beijos me preencheram a boca por dez meses. Tu ocupou meu pensamento durante quase um ano. Tu te tornou parte de mim, parte dos meus dias. E, apesar de todo o ressentimento, eu sinto a tua falta. De vez em quando sinto o cheiro do teu perfume quando passa uma menina qualquer e, às vezes, não seguro o riso ao lembrar das nossas conversas no telefone. E confesso que, bem de vez em quando, sinto vontade de voltar atrás, de dizer que quero tentar de novo, de dizer que desisto de desistir. 

Os 70 chegaram cedo demais pra nós.

Deitei-me sobre ela e pude ouvir aquele coração. Tentei não ser egoísta, tentei aceitar a partida. Mas eu não quero me despedir, não quero deixá-la ir. Ainda sobre ela, finalmente compreendi: eu estava prestes a perder a única que verdadeiramente me pertenceu durante todos esses anos.

Que esse inverno nos congele.

(…) E daí tu vai me dizer que o problema não tá em mim, mas sim em ti. Ou que o problema não tá em nenhuma de nós, mas sim no “todo”, no “geral”, na maneira como as coisas aconteceram e no tempo em que se desenrolaram. E então eu vou ficar com aquele nó no peito – que geralmente é uma mistura de raiva e desentendimento –, me perguntando o que poderia ter sido diferente e questionando o relógio sobre o porquê de tudo acontecer na hora errada.